Publicado originalmente em Revista Entrever, disponível aqui.
Elison Antonio Paim, Enelice Pansera, Mirian Carbonera
RESUMO
A proposta deste trabalho é evidenciar a educação patrimonial desenvolvida pelo Centro de Memória do Oeste de Santa Catarina (CEOM) na formação de professores da região oeste de Santa Catarina. O objeto de estudo foi o Projeto de Extensão Histórias da Pré-história: educação patrimonial entre os vales dos rios Chapecó e Irani. Realizado em 2008, contou com apoio financeiro do Fundo de Apoio a Extensão (FAPEX) da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó). Deste projeto resultou a exposição itinerante Pré-história nos vales dos rios Chapecó e Irani, que buscou socializar o conhecimento produzido a partir dos estudos arqueológicos realizados pela empresa Scientia Consultoria Científica, em parceria com o CEOM, nas áreas atingidas pela Usina Hidrelétrica de Quebra-Queixo, pela Linha de Transmissão Quebra-Queixo a Pinhalzinho e pelas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs)Plano Alto e Alto Irani. O trabalho de extensão e posterior pesquisa foram desenvolvidos com professores de diferentes áreas do conhecimento em doze municípios da região oeste de Santa Catarina.
Palavras-chave: CEOM. Educação Patrimonial. Formação de professores.
ABSTRACT
This paper objective is to evidence the Patrimonial Education developed by the Centro de Memória do Oeste de Santa Catarina (CEOM) in the teachers formation in the Santa Catarina’s west region. The study object was the extension project Histórias da Pré-história: educação patrimonial entre os vales dos rios Chapecó e Irani(Prehistory histories: patrimonial education in the valleys of the Rivers Chapecó and Irani). Made in 2008, it had the support of the Fundo de Apoio a Extensão (FAPEX) da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó). This Project resulted in the itinerant Prehistory in the valleys of the rivers Chapecó e Irani, that aimed to socialize the knowledge produced from de archeological studies made by the Quebra-Queixo hydro-electric power station, through the transmission line Quebra-Queixo e Pinhalzinho and the small hydro-eletric power stations centers (PCHs) Plano Alto e Alto Irani. The extension work and the research made after were developed with teachers from different knowledge areas in twelve cities from Santa Catarina’s west.
Keywords: CEOM. Patrimonial Education. Teachers formation.
INTRODUÇÃO
Tendo como base a experiência de trabalho no projeto Histórias da Pré-história: educação patrimonial entre os vales dos rios Chapecó e Irani,decidimos aprofundar a discussão sobre a preservação do patrimônio cultural na região oeste de Santa Catarina. Nas atividades educativas do projeto,utilizamos a metodologia da educação patrimonial,que vem sendo empregada nas atividades do CEOM,bem como em disciplinas do curso de História da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó). Dessa forma, buscamos,com a pesquisa,problematizara prática educativa difundida para sensibilização em relação à preservação dos bens culturais materiais e imateriais.
A pesquisa constituiu-se de um estudo de caso a partir da exposição itinerante Pré-história nos vales dos rios Chapecó e Irani. Procuramos perceber como e se ela contribuiu no processo educativo referente à preservação do patrimônio arqueológico. Analisamos a experiência vivida durante as visitas aos municípios para o trabalho de educação patrimonial e EntreVer, Florianópolis, v. 2, n. 2, p. 206-224, jan./jun. 2012 208 também os questionários preenchidos por professores que participaram das atividades relacionadas à exposição. Tentamos compreender quais foram os resultados proporcionados por esse trabalho educativo, identificando se a exposição estimulou a continuidade de atividades de educação patrimonial e se este trabalho instigou novas experiências, além de apresentar as fragilidades encontradas no projeto pelos participantes.
Esse trabalho possibilitou uma reflexão sobre as práticas de educação patrimonial. Uma das questões que norteou o trabalho foi perceber se houve alteração/modificação na relação da comunidade com o patrimônio arqueológico,a partir do contato com a exposição, assim como avaliar de que maneira os professores receberam essa iniciativa e até que ponto a exposição contribui para o trabalho desses professores e dos alunos com novas alternativas de ensino.
A PRESERVAÇÃO E VALORIZAÇÃO DA MEMÓRIA NO CONTEXTO REGIONAL
Na região do oeste de Santa Catarina,o Centro de Memória do Oeste de Santa Catarina (CEOM), criado em 1986, como um dos primeiros programas de extensão da Fundação Universitária de Desenvolvimento do Oeste (Fundeste), que é a atual mantenedora da Unochapecó, vem desenvolvendo uma série de trabalhos na perspectiva de guarda, registro e difusão de memórias,por meio de atividades educativas.
O CEOM foi criado por um grupo de professores como um espaço para o incentivo à preservação de memórias. Começou com a divulgação científica, procurou vínculos com museus próximos, preocupando-se enormemente com a cultura material arqueológica e,também, desenvolveu diversos projetos baseados na metodologia da história oral.
No presente, o CEOM é um programa permanente de pesquisa e extensão da Unochapecó, desenvolvendo ações voltadas à preservação e à valorização do patrimônio cultural do oeste de Santa Catarina. Nesse sentido,o CEOM mantém algumas frentes de trabalho,como: 1) o Centro de Documentação e Pesquisa, com laboratório de Conservação de Documentos(CEDOC) e uma Biblioteca especializada em materiais focados na memória e história da região oeste de Santa Catarina; 2) o Programa Patrimônio, Escola, Comunidade (PEC),que trabalha com a revitalização de museus históricos e também com aelaboração de histórias locais; 3) o Núcleo de Estudos Etnológicos e Arqueológicos(NEEA), com o objetivo de salvaguardar acervos oriundos de pesquisas arqueológicas desenvolvidas por empresas especializadas,em áreas que serão atingidas por obras de grande impacto ambiental, mantendoum laboratório para higienização dos materiais arqueológicoseuma reserva técnica; 4) a divulgação científica na revista Cadernos do CEOM, Série Documentos, Coleção História e Patrimônioe Coleção Histórias Locais; 5) as ações de assessoria a museus e a espaços de memória em municípios e empresas da região; 6) as atividades de educação patrimonial para estudantes, professores e comunidade em geral; 7) as exposições temporárias e permanentes,conveniadas ou próprias. O CEOM também organiza seminários, oficinas, palestras, vinculadas à área de atuação.
Desde 1986, o CEOM fomentou uma série de ações nos municípios do entorno de Chapecó,como a promoção de palestras e de cursos de capacitação,com o intuito de formar profissionais para atuar na área do patrimônio cultural.
Como neste texto voltamo-nos de maneira mais direta às atividades de educação patrimonial desenvolvidas na área de arqueologia, a seguir destacamos alguns aspectos da constituição e atuação do NEEA.
No ano de 2002, a equipe do CEOM realizou negociações com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para criar o Núcleo de Estudos Etnológicos e Arqueológicos (NEEA). A criação teve como principal objetivo receber parte do acervo Marilandi Goulart, o qual tinha sido retirado de diversos sítios arqueológicos do oeste de Santa Catarina, norte e noroeste do Rio Grande do Sul, nas décadas de 1980 e 1990. Contudo,o acervo acabou ficando com a Universidade Regional Integrada (URI), no campus de Erechim,no Rio Grande do Sul. Carbonera coloca que:
Com o falecimento de Marilandi Goulart, no final da década de 1990, o acervo arqueológico ficou por alguns anos num depósito da ELETROSUL (Florianópolis), ao que tudo indica em péssimas condições, inclusive sofrendo ação da água e umidade como conseqüência das enchentes. Nessa época, o IPHAN amparado pela legislação e pelas cartas internacionais que definem sobre preservação do patrimônio arqueológico, buscou implementar um projeto de repatriamento do acervo resultante do PSAU e do PSAU-UHE Itá para a região de origem, tendo em vista duas universidades regionais como possíveis instituições de guarda, sendo elas: a Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões-URI/Campus de Erechim e a Universidade do Oeste de Santa Catarina-UNOESC/Campus de Chapecó (atualmente UNOCHAPECÓ). A salvaguarda do material foi concedida à URI, através da portaria do IPHAN, número 218/2002 (CARBONERA, 2008a, p. 53).
É importante salientar que,embora o acervo Marilandi Goulart tenha ficado a Universidade Regional Integrada/ Campus de Erechim,o CEOMf oi fundamental para fomentar as discussões que culminaram na criação do NEEA e, também,porque,por meio dele,houve um estímulo à valorização das coleções arqueológicas depositadas em museus ou instituições acadêmicas.
O NEEA foi criado com auxílio financeiro do IPHAN e da Fundação Vitae, passando,em seguida,a receber acervos arqueológicos para guarda, como por exemplo,o acervo arqueológico da Usina Hidrelétrica de Quebra-Queixo,que está localizada nos municípios de Ipuaçu e São Domingos. Posteriormente,o NEEA/CEOM desenvolveu novos convênios com empresas de arqueologia de contrato,possibilitando que outros acervos de sítios arqueológicos escavados na região oeste de Santa Catarina continuem chegando.
Ao longo desses 25 anos de trabalho,pode-se perceber que a região oeste ainda vê com preconceito e resistência o seu patrimônio cultural. Como exemplo,podemos citar principalmente o descaso e o não reconhecimento de grande parte da população dos vestígios arqueológicos como patrimônio. É comum a associação desses achados com a ideia de que,se eles forem preservados,os grupos indígenas atuais poderão utilizá-los para comprovar a ocupação ancestral dessas terras tendo em vista sua demarcação.
Como já destacamos, o CEOM se preocupa em valorizar a memória dos diferentes grupos étnicos que compõe o cenário regional,desenvolvendo ações para minimizar os problemas de disputa em torno de quais memórias devem ser preservadas. Para tanto, as ações são levadas até a comunidade. Assim,“[…] são realizadas ações na área da História Local e da Educação Patrimonial, que incluem cursos de capacitação docente e a criação/dinamização de espaços museológicos” (DMITRUK, 2001, p. 13).
Por meio da educação patrimonial, o CEOM realiza atividades visando proporcionar reflexões no que tange à problematização, preservação, entendimento e valorização dos bens materiais e imateriais da região oeste catarinense. Desta forma, o patrimônio deixa de ser o repositório de saudosismos festivos e um espaço laudatório, e torna-se um fenômeno que provoca o pensamento e a ação sobre o mundo. Dessa forma,demonstra a importância da preservação do patrimônio como possibilidade de entendimento das antigas sociedades que viveram na região e também mostra que a cultura material e imaterial é uma herança cultural legada pelas gerações passadas para as gerações futuras. Tem, ainda,como perspectiva,criar novas possibilidades de ensino e fruição do conhecimento e estimular a comunidade local quanto à importância da valorização do patrimônio cultural,despertando a capacidade de análise do aluno por meio da busca constante, incorporando novas experiências e inovações (CARBONERA, 2008b).
EDUCAÇÃO PATRIMONIAL EM PROJETOS DE ARQUEOLOGIA CONTRATUAL
As primeiras experiências com a metodologia da educação patrimonial datam de 1983, no Museu Imperial, com a realização do I Seminário de Uso Educacional de Museus e Monumentos, quando se detectou a necessidade do trabalho conjunto com professores.
A metodologia de educação patrimonial pode ser desenvolvida em qualquer espaço social e com qualquer faixa etária. A observação direta e a análise daquilo que está à vista de nossos olhos permitem à criança ou ao adulto vivenciar a experiência e o método dos cientistas, dos historiadores e dos arqueólogos, que partem dos fenômenos encontrados e da análise de seus elementos materiais, formais e funcionais para chegar às conclusões que sustentam suas teorias. O aprendizado desse método de investigação é uma das primeiras capacitações que se pode estimular nos alunos, ao longo do processo educacional, desenvolvendo suas habilidades de observação, de análise crítica, decomparação e dedução, de formulação de hipóteses e de solução de problemas colocados pelos fatos e fenômenos observados.
O conhecimento crítico e a apropriação consciente,por parte das comunidades e indivíduos,do seu patrimônio,são fatores indispensáveis no processo de preservação desses bens, assim como para o fortalecimento dos sentimentos de identidade e de cidadania(HORTA; GRUMBERG; QUEIROZ, 1999). O patrimônio, como o nome já diz, é algo herdado de nossos pais e antepassados. Essa herança só passa a ser nossa, para ser usufruída, se nos apropriarmos dela, se a conhecermos e reconhecermos como algo que nos foi legado, e que deveremos deixar como herança para nossos filhos, para as gerações que nos sucederão no tempo e na história (HORTA; GRUMBERG; QUEIROZ, 1999; GRUMBERG, 2000).O patrimônio constitui a nossa riqueza cultural, individual e coletiva, a nossa memória, o nosso sentido de identidade, aquilo que nos distingue de outros povos e culturas:é a nossa ‘marca’,inconfundível, de pertencimento a uma cultura própria,e nos aproxima de nossos irmãos e irmãs, herdeiros dessa múltipla e rica cultura brasileira. O conhecimento dos elementos que compõem essa riqueza e diversidade, originários de diferentes grupos étnicos e culturais,que formaram a cultura nacional, contribui igualmente para o respeito à diversidade, à multiplicidade de expressões e formas de manifestação da cultura nas diferentes regiões, a começar pela linguagem, hábitos e costumes. A percepção dessa diversidade concorre para o desenvolvimento do espírito de tolerância, de valorização e de respeito das diferenças,e para a compreensão de que não existem povos ‘sem cultura’ou culturas melhores do que outras.
O diálogo permanente que está implícito neste processo educacional estimula efacilita a comunicação e a interação entre as comunidades e os agentes responsáveis pela preservação e o estudo dos bens culturais, possibilitando a troca de conhecimentos e a formação de parcerias para a proteção e valorização desses bens (HORTA; GRUMBERG; QUEIROZ, 1999, p. 6).
Compreendemos como patrimônio, também, os saberes e a experiência de vida dos diferentes povos em diferentes lugares, como por exemplo: a floresta, parte fundamental da herança cultural dos povos indígenas das várias regiões do país; o maracatu, tão popular no nordeste e no norte do país,é a expressão de elementos trazidos pela cultura africana, incorporando uma prática religiosa e uma manifestação popular, sendo por isso, da mesma forma, um elemento significativo da cultura brasileira; o carnaval de Olinda; as vaquejadas do Pantanal; as técnicas tradicionais da pesca no litoral de Santa Catarina; o trabalho das rendeiras nordestinas e florianopolitanas; as panelas fabricadas pelas mulheres do Vale do Jequitinhonha; a maneira de plantar, fiar e tecer o linho,que ainda sobrevive no interior do Rio Grande do Sul; as rodas de samba carioca; as festas do Divino em Parati; os filós e jogos de truco do oeste de Santa Catarina; e tantos outros, não citados aqui, são exemplos da cultura viva que pode ser trabalhada e conhecida por meio da educação patrimonial (TVE BRASIL, 2009).
A metodologia específica da educação patrimonial pode ser aplicada aqualquer evidência material ou manifestação da cultura, como um objetoou conjunto de bens, um monumento ou sítio histórico ou arqueológico, uma paisagem natural, um parque ou uma área de proteção ambiental, um centro histórico urbano ou uma comunidade da área rural, uma manifestação popular de caráter folclórico ou ritual, um processo de produção industrial ou artesanal, tecnologias e saberes populares ou qualquer outra expressão resultante da relação entre os indivíduos e seu meio ambiente(HORTA; GRUMBERG; MONTEIRO, 1999, p. 6).
Outro aspecto de fundamental importância,no trabalho da educação patrimonial,é o seu caráter transdisciplinar, podendo ser utilizado como método em todas as disciplinas.
A ciência arqueológica vem utilizando a metodologia da educação patrimonial para socializar os resultados das pesquisas realizadas, por meio de publicações, palestras, exposição, atividades guiadas em museus, entre outras.
O CEOM,que desde a criação do Núcleo de Estudos Etnológicos, Etnográficos e Arqueológicos (NEEA) tem recebido acervos resultantes das pesquisas arqueológicas, também tem procurado desenvolver atividades de extroversão dos dados obtidos nestas pesquisas, bem como desensibilização da comunidade em defesa do patrimônio arqueológico. Assim, vem sendo realizadas atividades com a comunidade em geral, com os alunos da Educação Infantil e Educação Básica, com os acadêmicos de diferentes cursos de graduação e também com grupos de movimentos sociais da região oeste catarinense. Compreendendo que a educação patrimonial não pode ser limitada à escola, enquanto lugar privilegiado da aprendizagem,e visando à promoção de projetos educacionais com as comunidades para que as populações se apropriem e usufruam, de forma consciente, do seu patrimônio, o CEOM vem desenvolvendo projetos de extensão com atividades de educação patrimonial. Entre os anos de 2004 e 2005, foi elaborado, juntamente com a exposição Arqueologia das Multiplicidades no Oeste de Santa Catarina, um projeto de extensão chamado Arte e Educação; no ano de 2006, foi elaborou-se o projeto Inventário das coleções arqueológicas nos museus regionais.
Para dar continuidade a esses trabalhos, no ano de 2007 foi criado o projeto de extensão denominado Histórias da pré-história: educação patrimonial entre os vales dos rios Chapecó e Irani.
OS PROJETOS DE ARQUEOLOGIA CONTRATUAL
O termo‘Arqueologia de Contrato’surge, no Brasil, em função da Resolução do Conama, de 1987, que passou a regulamentar os estudos arqueológicos em obras de impacto ambiental. Após a Resolução, nasceram empresas especializadas em arqueologia, além de profissionais que atuam de forma autônoma por meio de um contrato de prestação de serviço.
Na chamada arqueologia empresarial ou de contrato, as atividades de educação patrimonial são obrigatórias naquelas comunidades que serão atingidas por obras de impacto ambiental, como determina a Portaria n. 230/2002 do IPHAN. A Usina Hidrelétrica de Quebra-Queixo é um desses casos. Ela foi implantada no rio Chapecó, com barragem e reservatórios nos municípios de Ipuaçu e São Domingos, ambos no estado de Santa Catarina. A pesquisa arqueológica foi realizada no ano de 2001, tendo sido registrados na região atingida 33 sítios arqueológicos, quatro do tipo casas subterrâneas. Dos sítios pesquisados, foram recuperados 922 fragmentos cerâmicos e 1.900 objetos líticos, e coletadas amostras de restos fito-faunísticos.
A construção da linha de transmissão de energia Quebra-Queixo -Pinhalzinho atingiu sete municípios: São Domingos, Ipuaçu, Quilombo, Entre Rios, Marema, União do Oeste e Pinhalzinho. Nessa área,foram registrados seis sítios arqueológicos. As pesquisas de campo ocorreram no ano de 2003,e foram coletados 417 fragmentos cerâmicos e 1.328 objetos líticos.
As Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) Plano Alto e Alto Irani atingiram quatro municípios: Faxinal dos Guedes, Arvoredo, Xavantina e Xaxim. Em Plano Alto foram registrados 12 sítios. Na PCH Alto Irani, foram cadastrados 23 sítios arqueológicos. As pesquisas arqueológicas de campo ocorreram no ano de 2005, quando foram recuperados 208 fragmentos cerâmicos e 4.041 objetos líticos.
Os vestígios encontrados por meio dessas pesquisas revelaram quais os grupos humanos que ocuparam a área estudada, quais tipos de objetos foram produzidos, quais as matérias-primas de preferência, enfim, trouxeram informações sobre o modo de vida dessas antigas sociedades. As análises de laboratório classificaram os objetos como pertencentes à tradição Taquara, prováveis antepassados dos grupos Kaingang.
Segundo Schmitz e Becker (1991), o termo ‘tradição Taquara’identifica aqueles sítios arqueológicos encontrados preferencialmente em áreas de planalto, no oeste catarinense, especialmente nos afluentes do rio Uruguai e que possuem cerâmica de características pequenas, com decoração impressa variada; estão associados a estes sítios trabalhos de engenharia de terra, as chamadas ‘casas subterrâneas’.
Por meio de datações obtidas a partir de amostras de carvão, retiradas do sítio QQ 22, localizado no município de Ipuaçu, foram estabelecidas as idades de 100, 144 e 122 anos, que indicam o período de ocupação.(CALDARELLI; HERBERTS, 2005). Já para os sítios localizados às margens do rio Irani, as pesquisas arqueológicas revelaram populações reduzidas e refugiadas,que ocuparam a área já em período histórico avançado (CALDARELLI, 2007).
A CONCEPÇÃO E MONTAGEM DA EXPOSIÇÃO
Para o desenvolvimento do projeto de extensão Histórias da pré-história: educação patrimonial entre os vales dos rios Chapecó e Irani, elaboramos a exposição Pré-História nos vales dos rios Chapecó e Irani, que, além de socializar os resultados das pesquisas arqueológicas realizadas para a construção das referidas obras, contribui para a divulgação da ciência arqueológica na região oeste de Santa Catarina.
Para Marilia Xavier Cury, a exposição “[…] não pode ser concebida e organizada por uma só pessoa, mas sim, por uma equipe especializada, justamente por visar estabelecer uma relação com a sociedade” (CURY, 2003, p. 45), exemplo disso é o trabalho realizado pela equipe do CEOM, pois possui profissionais capacitados para executar diferentes atividades junto a comunidade em geral.
A exposição Pré-história nos vales dos rios Chapecó e Irani possui textos sobre os primeiros grupos que viveram na região oeste de Santa Catarina;mapas com destaque para municípios que foram atingidos pelas obras;resumo explicativo sobre a pré-história e a arqueologia na região;fotos de locais onde foram encontrados sítios arqueológicos;fotos do trabalho do arqueólogo em campo e no laboratório;fotos de objetos líticos e fragmentos cerâmicos;histórico das pesquisas;duas imagens de representação de atividades cotidianas de grupos de caçadores-coletores e grupos agricultores e contém, ainda,uma imagem que representa a atividade de escavação num sítio arqueológico. Este material foi disposto emoito caixas, confeccionadas na própria universidade, feitas de MDF branco. Cada uma delas possuia 60 cm de largura, 52 cm de altura e 12 cm de profundidade. A exposição foi organizada deste modo a fim de viabilizar sua circulação pelos municípios afetados pelas obras da hidrelétrica.
Antes de a exposição começar a circular, foi pensado um trabalho de educação patrimonial para ser desenvolvido com os professores, composto por textos e atividades didáticas. Esse material deveria subsidiar a visita e também novas atividades,que poderiam ser realizadas em sala de aula.
A EXPOSIÇÃO NOS MUNICÍPIOS
A exposição Pré-história entre os vales dos rios Chapecó e Irani visitou dez municípios diferentes, sendo que,em cada um desses municípios,o projeto foi recebido de uma forma diferente.
O município deveria indicar as pessoas que fariam a monitoria, geralmente os monitores eramos próprios professores da região, provenientes das disciplinas de História, Geografia, Biologia, Artes, entre outros,e também alguns professores dos anos iniciais da Educação Básica,interessados em saber mais sobre o trabalho exposto. Para tanto, inicialmente,apresentava-sea exposição aos professores para que,depois, em sala de aula, eles conseguissem realizar outros trabalhos junto com os alunos,após a visitação.Na maioria dos municípios, os professores manifestaram interesse pelo trabalho, porém alguns se mostraram desinteressados pelo assunto,talvez por ser este um trabalho pouco conhecido na região ou ainda em razão do modelo de colonização da região,que contribui para reforçar preconceitos.
Esse trabalho junto aos professores e aos alunos teve como objetivo principal mostrar a importância da preservação da cultura regional e,também,reforçar a importância,na constituição da história regional,do papel da cultura material legada pelas gerações do passado às gerações futuras.
Com esse intuito, foi entregue um texto aos professores interessados, e o representante da escola ou da Secretaria da Educação de cada município visitado recebeu, além do texto,um kit com materiais didáticos do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Na região oeste catarinense, o trabalho de pesquisa na área da arqueologia, apesar de ter sido iniciado na década de 1950, ainda é pouco conhecido. Por isso, os professores têm pouco acesso a materiais didáticos como vídeos ou livros.
Em alguns municípios tivemos dificuldades para realizara conversa com os professores, sendo que em alguns casos porque as escolas ficavam localizadas no interior e os professores não conseguiam liberação da direção da escola para participar destes encontros.
Na maior parte dos municípios,a exposição, aberta ao público, ficou sediada na biblioteca Pública Municipal ou nas escolas, devido a facilidade do acesso tanto para o público escolar quanto para a comunidade em geral, tendo recebido um número considerável de visitantes,considerando a extensão do território e o número de habitantes de cada município.
A exposição circulou por onze municípios: Xavantina, Pinhalzinho, Arvoredo, Marema, Entre Rios, Ipuaçu, São Domingos, Quilombo, Xaxim e União do Oeste. Em cada um deles ela permaneceu aproximadamente três semanas e recebeu,em média,364 visitantes, sendo que o maior número de visitas se deu em São Domingos e o menor em Xaxim.
Das municipalidades listadas, pelo controle de visitas com assinatura de livro de presenças, observamos que uma escola do município de Saudades –que não seria contemplado nesse primeiro ano do projeto – visitou a exposição no período em que ela permaneceu no Museu Histórico de Pinhalzinho, na cidade de Pinhalzinho.
Ainda por intermédio do livro de visitas, pudemos traçar o perfil do público envolvido composto em sua maioria de alunos,97,89%, sendo que o público não escolar somou apenas 2,11%. Pudemos observar também que houve a participação de 47 instituições, principalmente escolas municipais e estaduais.
Elaboramos um questionário que visa avaliar a exposição desde sua concepção/formato até em que medida esse trabalho contribui na valorização do patrimônio cultural. A avaliação foi preenchida pelos professores de cada município por onde a exposição circulou. Este questionário foi respondido por 25 professores de formação diferenciada, sendo que destes,doze possuem pós-graduação lato sensu, oito deles são graduados, dois possuem mestrado, dois graduação incompleta e um o Ensino Médio completo.
A primeira questão objetivava avaliar o aspecto visual da exposição. Ao se referirem ao tamanho dos módulos,68% avaliaram como bom; 28% consideraram ótimo; 4% consideraram regular; e 0% ruim. Quanto ao formato dos módulos, 68% consideraram bom, 32% ótimo, ninguém considerou regular ou ruim. Já referente à linguagem utilizada na exposição, 52% avaliaram como boa; 48% ótima e novamente ninguém considerou regular ou ruim. No item referente aos gráficos e desenhos, 52% avaliaram como ótimos,48% consideraram bons e ninguém considerou regulares ou ruins. Quanto ao tamanho das fontes utilizadas na escrita, 44% avaliaram como bom, outros 44% como ótimo, 12% como regular; e ninguém considerou ruim. De forma geral, no tocante ao aspecto visual, a maioria considerou entre bom e ótimo.
Quanto à avaliação dos educadores,referente ao trabalho de capacitação –que foi realizado no dia da montagem da exposição e visava instrumentalizar os professores–, percebemos que,dos 25 educadores que preencheram o questionário e responderam se a capacitação estimulou a visita à exposição,68% consideraram muito boa; 32% avaliaram como boa; 12% razoável; e ninguém considerou fraca ou muito fraca. Quanto a novos conhecimentos adquiridos por meio da capacitação, 64% considerou muito bom; 20% bom; 4% razoável; ninguém considerou fraca ou muito fraca. Ao fazerem referência anovas possibilidades de ensino a partir de objetos museológicos, 64% considerou muito bom; 36% bom; e ninguém considerou razoável, fraca ou muito fraca. Ao avaliarem a capacitação, considerando se as dicas de atividades contribuíram para um melhor aproveitamento nas visitas,60% consideraram muito boa; 40% boa; ninguém considerou razoável, fraca ou muito fraca. Por fim, avaliamos nessa questão se os materiais suplementares foram satisfatórios: 48% consideraram bom; 40% muito bom; 8% razoável; 4% fraco; e ninguém considerou muito fraco.
De maneira geral, percebe-se que as avaliações ficaram divididas entre bom e muito bom, sendo que apenas no item sobre os materiais suplementares houve maior insatisfação–uma vez que, devido ao pouco recurso financeiro disponível, não foi possível produzir material didático específico para entregar nas escolas. Quanto aos temas abordados na exposição nota-se a avaliação sobre o tema e a proposta da exposição. O primeiro item questionava sobre o tema abordado pela exposição e a relação com os conteúdos trabalhados em sala: 56% avaliaram como bom; 44% muito bom;e ninguém considerou razoável, fraco ou muito fraco. Quanto à exposição e se ela forneceu novas alternativas para atividades e debates: 52% consideraram boa; 48% muito boa; e ninguém considerou razoável, fraca ou muito fraca. Referente ao tempo que a exposição esteve no município: 60% consideraram muito bom; 24% bom; 16% razoável; e ninguém considerou fraco ou muito fraco. Se a exposição possibilitou pensar outras atividades: 52% avaliaram como bom; 44% muito bom; 14% razoável; e ninguém considerou fraco ou muito fraco. Se após a exposição será possível dar continuidade às atividades de educação patrimonial: 56% consideraram muito bom; 44% bom; e ninguém considerou razoável, fraco ou muito fraco. De modo geral, nota-se que o tema e a proposta de exposição também foram bem avaliados.
Buscamos avaliar como a exposição possibilitou a melhoria na relação da comunidade com o patrimônio arqueológico regional. No tocante a avaliação dos professores quanto a influência da exposição na relação da comunidade com o patrimônio arqueológico regional,52% avaliaram que houve e justificaram,dizendo: “Porque mostrou a importância do patrimônio arqueológico da região Oeste de Santa Catarina”. Outros 44% acharam que mudou apenas parcialmente,e observaram que: “A comunidade regional ainda é leiga nesse assunto e por esse motivo não tem interesse em valorizar esses materiais”. Apenas 4% disseram que não mudou em nada.
Avaliamos também se os professores achavam necessárias algumas mudanças na exposição. Dos respondentes ao questionário 40% disseram que sim e salientaram que “a exposição deveria estar em local mais amplo para melhor circulação do público e também sentiram necessidade de um monitor especializado para apresentar a exposição”; 32% responderam que em parte e opinaram afirmando que: “A exposição deveria permanecer mais tempo no município e que os objetos pudessem ser manuseados”; e 28% responderam que não seria necessária nenhuma mudança na exposição.
Para as questões: você teve alguma dificuldade em trabalhar com a exposição? Ou percebeu alguma dificuldade de assimilação dos alunos? Obtivemos as seguintes respostas: 52% dos professores responderam que não tiveram nenhuma dificuldade e afirmaram que: “Os alunos colaboraram e a pessoa que monitorou estava bem preparada”; e 42% responderam que tiveram dificuldades, pois “os alunos conheciam pouco sobre o assunto”.
Na última questão, quando perguntamos sobre a importância de iniciativas dessa natureza, os 25 professores consideraram afirmativamente e salientaram que atividades dessa natureza despertam o interesse por parte dos alunos em compreender mais sobre os nossos antepassados, e um maior comprometimento com os objetos culturais–apesar de sentirem a necessidade de mais palestras e vídeos, destinados a comunidade em geral, mais tempo de permanência da exposição no município, continuidade dos trabalhos e interação dos alunos com os objetos expostos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por meio da exposição itinerante Histórias da Pré-história: educação patrimonial entre os vales dos rios Chapecó e Irani, e pensando na importância da memória e do trabalho de educação patrimonial,na região oeste de Santa Catarina, socializamos conhecimentos, produzidos a partir de estudos,com os municípios atingidos por obras de impacto ambiental.
Durante as visitas aos municípios atingidos, foi realizada uma análise da experiência vivenciada,por meio da qual percebemos alguns pontos negativos,por parte das pessoas dessas localidades,em relação aos estudos arqueológicos. O preconceito ainda é muito grande, mas evidenciou-se que ele é uma decorrência da falta de informação.
Também ficou evidente que os estudos e trabalhos na área de arqueologia não são muito desenvolvidos na região oeste de Santa Catarina, tanto porque os professores não realizaram muitos estudos na área quanto porque não havia disciplinas específicas,durante a graduação,para que os educadores pudessem saber mais sobre a Arqueologia.
Outro ponto importante que percebemos foi que há pouco conteúdo de Arqueologia nos livros didáticos; ou ainda que a Arqueologia é vista como a ciência que estuda as civilizações que já não existem mais,não fazendo, portanto,uma ligação entre o passado e o presente. Diante disto, às vezes, deixa-sede estudar a Arqueologia em sala, gerando uma lacuna no aprendizado dos alunos. Se esse conteúdo fosse trabalhado em sala de aula despertaria a curiosidade e o interesse por parte dos estudantes e o consequente respeito para com o patrimônio arqueológico,tão abundante em muitos municípios da região. Durante as visitas os professores responderam, também,um questionário referente à exposição,e por intermédio dessas respostas pudemos avaliar o resultado da exposição. A partir deste questionário concluímos que o trabalho de Educação patrimonial realizado foi válido quanto aos esclarecimentos que possibilitou às muitas dúvidas que os professores e alunos possuíam sobre a Arqueologia na região. Outro ponto positivo foi desfazer preconceitos da população em relação aos povos indígenas,que viviam e vivem na região oeste de Santa Catarina.
Porém, consideramos de fundamental importância que a universidade esteja preocupada com a nossa cultura, pois pudemos perceber que a cultura da região oeste catarinense ainda é pouco valorizada. Entendemos que a universidade deve contribuir com projetos de extensão como esse,que expande o conhecimento adquirido por meio da Arqueologia sobre aqueles povos que viveram nos espaços dos atuais municípios atingidos pelas obras já citadas. Este tipo de projeto provoca na comunidade o interesse pelo conhecimento e estimula a valorização do patrimônio cultural, em especial o arqueológico.
Como cidadãos, somos responsáveis, individual e coletivamente, pelo presente e pelo futuro;precisamos reconhecer, respeitar e utilizar o patrimônio,que se define na diferença e se inscreve na continuidade. Articular a Arqueologia é trazer novas possibilidades de ensino, pesquisa e extensão.
REFERÊNCIAS
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